"Podia perfeitamente levar uma vida activa — se houvesse alguma coisa pela qual trabalhar. Não tenho a mania da perseguição nem oiço vozes, nem tenho alucinações... exceptuando que o mundo em que eu vivo me parece totalmente um mundo de alucinação! (...)
Há duas coisas que não posso perceber e que o senhor poderá considerar como sintomas (1). Mas, antes, deixe-me dizer-lhe que realmente me agrada pensar que não estou bem, que há qualquer coisa em mim que não vai bem... Porque, se não for assim, então é porque há um mal no mundo, ou ele é pelo menos muito diferente do que parecia ser – o que me aterroriza muito mais ainda! Seria terrível. Prefiro acreditar que o mal está em mim, e que se pode curar. (...)"


Os Sintomas (1)


Causa 1

"Uma sensação de solidão. Mas soa tão prosaicamente! Não diria apenas que tive um choque – embora tivesse tido. Também não é apenas o findar de uma ilusão, no sentido habitual, ou o estar num beco sem saída. (...) Quero dizer que o que aconteceu me deu a sensação de que tenho estado sempre só. Que estamos sempre sós. Não foi apenas o fim de um relacionamento, nem descobrir, tão só, que ele nunca existira — foi uma revelação sobre o meu relacionamento. (...) Parece-me que já não vale a pena falar com quem quer que seja!"

("- não quer ver ninguém então?")

"Não... não é que queira estar só, toda a gente está só — é o que é! — ou, pelo menos, o que me parece. Fazem barulho e pensam que estão a conversar; fazem caretas e pensam que se compreendem uns aos outros, e eu tenho a certeza de que não se compreendem."



Causa 2

"(...) uma sensação de pecado. (...) A mim parece-me anormal. (...) É muito fácil dizer-lhe o que não entendo: não dou a pecado o sentido vulgar. (...) suponho que é ser imoral... e eu não sinto que tenha sido imoral. De facto não serão as pessoas que consideramos imorais precisamente as que dizemos não terem senso moral? Nunca dei por que a imoralidade fosse acompanhada por um sentimento de pecado. Acho que é perverso ferir as outras pessoas, desde que saibamos que as estamos a ferir. Mas eu não a feri.Não lhe estava a tirar nada — nada que ela quisesse. Posso ter sido uma tola, mas não me importo nada de o ter sido."

© cocktail party, t. s. eliot

a 24.5.10
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