" Cary Grant, vestido com uma camisa branca de colarinho desabotoado e calças largas, tudo com o ar de que tinha dormido com elas, estava sentado à sua grande secretária carregada de papeladas da Universal, barba de um dia, o cabelo grisalho desalinhado, tendo acabado de chegar de uma reunião sobre a sua produção That Touch of Mink. Falou com tanta simpatia de Hitchcock como este tinha falado dele: “Oh, Hitch é bestial! Entra-se no plateau de um filme seu e tudo é exactamente como se tinha pensado que seria, como deveria ser — nunca há nada fora do lugar’’, disse-me ele naquela maneira à Bristol, única, que os actores tornaram tão popular. Sorriu. “E tem tanta paciência. Nunca esquecerei quando estávamos a rodar Notorious com Ingrid. Uma manhã iniciamos uma cena que era bastante difícil porque Ingrid tinha de dizer uma frase de uma maneira especial para que eu a pudesse imitar. Bom, começámos„, continuou, recostando-se e revivendo a situação, “e Ingrid não conseguia. Repetimos várias vezes a cena e Ingrid parecia desorientada. Sabe, era como se não estivesse lá. E Hitch não dizia nada. Estava ali, sentado ao lado da câmara, chupando o seu charuto.„ Grant riu-se levemente com a recordação. “Finalmente, por volta das onze horas, vi nos olhos de Ingrid que ela estava a chegar. E pela primeira vez nessa manhã, as palavras saíram na perfeição. Então Hitch disse: 'Corta'.„ Parou e olhou rapidamente para a esquerda, como se estivesse espantado, para Hitchcock. “E eu pensei„ disse, olhando de novo para mim, “porque raio parou agora? Hitch continuou calmamente sentado, olhou para Ingrid e disse muito simplesmente, 'Bom dia Ingrid'.„ "


excerto de Nacos de Tempo - crónicas de cinemas, de Peter Bogdanovich

a 19.6.13
Etiquetas: , , , , , ,

 

0 comentários: