Antigamente
havia coisas que hoje não há
por exemplo
o par constituído
pelo rapaz atrevido
e pela rapariga às direitas
o rapaz atrevido
espera que a rapariga às direitas
volte a esquina
carregada de embrulhos
a carteira apertada entre o braço
e o casaco de bom corte
para esbarrar com ela
pedir desculpa
ajudá-la a apanhar os embrulhos
aproveitar para lhe ver as meias
as meias têm sempre costura
a rapariga às direitas
suspeita o choque
de intencionalidade
a rapariga às direitas
não é de meias-medidas
agarra na carteira
e dá com ela
na cabeça do rapaz atrevidos
com toda a força
carteiras daquela dureza
já não se fabricam hoje
o golpe da carteira (outra coisa que desapareceu)
é o começo do namoro
a rapariga às direitas
vai-se tornando cada vez mais doce
o rapaz atrevido
vai-se tornando cada vez menos malandro
no fundo têm os dois bom coração
a rapariga fixa-se num ponto da borda do carrossel
o rapaz agarra-se a um pilar do carrossel
e sempre que o carrossel dá uma volta completa
o rapaz dá um beijo na rapariga
o rapaz tem um íman na boca
a rapariga tem uma boca de ferro
nem sempre o rapaz acerta na boca da rapariga


 
"O Golpe da Carteira", poema de Adília Lopes

a 12.7.13
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