— A antropologia não ensina uma verdade absoluta, aliás nem a psicologia, mesmo a psicologia profunda, quando ensina que cada um de nós é um composto de opostos e que todos somos, pelo menos espiritualmente, hermafroditas. Ora se assim fosse o sexo de cada um de nós era rigorosamente idêntico ou não existente. Mas enquanto não nos tivermos convencido disso talvez seja indiferente ser-se homo, heterodoxa ou ortodoxamente sexual, porque o que verdadeiramente conta é que tendo nós um sexo, estamos forçosamente incompletos, desunidos e seremos obscuros uns para os outros e para nós próprios. 

(...)

— Não, diga-me, é ou não importante a diferença de sexo nas relações humanas?
— Para que o sexo deixasse de contar era preciso que nós nos tivéssemos já tornado anjos porque assim teríamos ultrapassado o amor de origem natural. É que o mal não está só na relação dos sexos, mas na própria existência deles.
— Tudo o que diz respeito ao corpo é demoníaco, não acha?
— Não. Acho que nada é demoníaco, ou tudo é demoníaco. Não condeno, tudo deve estar certo.
— Mesmo o corpo? Mesmo isso que é o sinal da separação irremediável de todos nós uns com os outros e com o mundo?
— Sim, mesmo o corpo. Aquele que tem o poder de separar deve igualmente ter o poder de unir.



excerto de O Mestre, de Ana Hatherly

a 28.10.14
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2 comentários:

Johnny Guitar

Se há coisa para que a Antropologia serve (e há dias que até disso duvido) é para desmentir as verdades absolutas.

bpassarinho

neste livro também há uma boa sobre as mentiras, as verdades, as omissões. tudo isso.